Category Archives: Colunistas

24.06.2010 – A Copa do Mundo é nossa!

A Copa do Mundo 2010 acabou, mas longe da maneira como os brasileiros gostariam.

Ainda assim, essa copa será eternamente lembrada pela alegria e entusiasmo do povo africano, as ensurdecedoras vuvuzelas, o polvo Paul (cadê o polvo John, George e Ringo?), a voluptuosa torcedora paraguaia e a famosa Jabulaaaaaaani.

Como já alardeiam os meios de comunicação, comerciais e propagandas, a próxima copa, em 2014, será aqui, em “nostra terra” tupiniquim, o Brasil.

Já imaginou a loucura desse povo tão apaixonado por futebol?

Mas, onde fica a sustentabilidade e a preocupação com o meio ambiente no meio desse alvoroço todo?

Vamos refrescar a memória e voltar até a Copa de 2006, realizada na Alemanha. Desde aquele evento, foi instituído que toda a estrutura alusiva as Copa do Mundo, desde a construção de estádios, uso de energia e água, meio de transporte, etc deve ser pensada com o conceito “green building” (construção verde), solicitando que todo país sede da competição levasse em conta o potencial impacto que o evento pode causar ao meio ambiente, implementando formas de mitigar os danos e optando por maneiras sustentáveis.

De efetivo, podemos citar os estádios a energia solar e eólica com captação de água da chuva – que são usados até hoje – e os ônibus a hidrogênio, testados na época da Copa, que de lá pra cá aumentaram a frota e tornaram-se o transporte definitivo.

Além de não fazer ruído, não emite qualquer tipo de poluente a atmosfera, liberando vapor d’água ao invés de reagentes tóxicos.

O evento foi um sucesso, mostrando ao mundo que com boa vontade, criatividade e empenho é possível realizar um mega evento equilibrando desenvolvimento e conservação do meio ambiente.

Já na Copa da África do Sul, houve muito pouco desta preocupação. Ou, talvez, ela não tenha sido mostrada pelos meios de comunicação. Aliás, foram sequer comentadas.

Vamos pensar que, desta vez, a mídia ficou tão focada na cobertura por qualquer informação ou fofoca relacionada a seleção canarinho, no seu técnico cascudo, poucos craques e “cavalos” convocados que não tiveram tempo de cobrir o evento de forma abrangente e profunda.

Já na próxima, não há “desculpa”. O Brasil, com toda a sua magnitude e prosperidade ambiental, com a maior floresta, maior biodiversidade, maior reserva de água e maior quantidade de solo fértil do planeta tem por obrigação ser um marco e exemplo de sustentabilidade.

Construções sustentáveis duram mais, usam materiais reaproveitáveis e causam a curto, médio e longo prazo, menos impactos ao meio ambiente e também ao dinheiro público.

Portanto em 2014 vamos nos pintar, enfeitar, cantar e torcer pela nossa seleção, mas não podemos deixar que todo esse entusiasmo nos desvie do papel e responsabilidade que temos como seres humanos e brasileiros.

O nosso patriotismo não é somente exercido com os olhos vidrados na tv, alheio a tudo ao redor. Ele é feito no dia a dia, respeitando a terra e o país onde vivemos, cultivando a cidadania nos pequenos detalhes diários que, somados, farão a diferença.

JP Rodrigues é Gestor e Educador Ambiental em Sorocaba
Críticas, elogios e sugestões: joao.gestor.ambiental@gmail.com

18.06.2010 – Mudanças no Código Florestal Brasileiro

O Código Florestal Brasileiro é de 1965. Sabemos que o conhecimento tecnológico, científico e ambiental evoluíram muito desde então.

Mas, mesmo com os seus 45 anos de vida, ele ainda é considerado um dos mais avançados do mundo.

Um professor da universidade costumava dizer que em relação ao meio ambiente, “a solução de hoje pode tornar-se o problema de amanhã”.  Isso por que o processo e tempo da natureza são muito diferentes dos nossos.

Ao plantar uma determinada árvore, ela levará 20 anos pra começar seu desenvolvimento. Pra nós, esse tempo é muito maior: já vivemos em média 1/3 da vida, somos adultos, maiores de idade, tiramos carteira de motorista e elegemos presidente.

Nesse sentido, o Código Florestal Brasileiro deve ser atualizado para poder acompanhar o desenvolvimento e demanda atuais.

Infelizmente, o relatório do Deputado Federal Aldo Rebelo (PCdoB) contendo as propostas para essas mudanças não cumpre essa função.

E o equívoco começa já na página 2, onde consta uma “dedicatória” com a seguinte frase: “Aos agricultores brasileiros”.

É público e notório que as divergências entre agricultores e ambientalistas são uma constante no Senado, além de ser um assunto muito delicado.

O político deve ter a capacidade de mediar conflitos e criar propostas para estabelecer ações que levem ao melhor caminho de interesse comum. Não deve beneficiar nem um lado nem o outro. Assim sendo, essa carinhosa dedicatória soa, pra dizer o mínimo, contraditória.

Outro ponto a ser considerado é a proposta de anistia a quem cometeu crimes ambientais como o desmatamento. Pelo novo Código, aqueles que respeitaram os percentuais da área verde de sua propriedade e agiram de acordo com a lei serão os mais prejudicados.

O relatório ainda ressuscita a teoria conspiratória de que ONG’s estrangeiras são inimigas do desenvolvimento do Brasil e, ao defenderem o meio ambiente, atrasam o progresso do país.

Cita nominalmente o cantor Sting (ex The Police) e também o diretor cinematográfico James Cameron, do recente sucesso Avatar – que, aliás, tem uma premissa ambiental muito interessante.

Estranho um deputado “perder tempo” citando essas duas pessoas, não acha?

E não são somente os ambientalistas que criticam os termos propostos. Há, entre vários estudos técnicos, um relatório feito pela ESALC (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), referência para os agricultores do país, que defendem a idéia de que mudanças devem ser feitas na Lei, mas não as que estão resumidas no documento em questão.

Outra proposta polêmica é a sugestão sobre as compensações: se você tiver uma propriedade e quiser ocupá-la toda com soja, por exemplo, pode fazer a compensação restaurando uma área em outro lugar. E qual o problema? Quando no atual código diz que não pode desmatar topo de morro e área de encosta, está se pensando na resiliência (capacidade de se manter) das Bacias Hidrográficas.

Um impacto nesse tipo de local é impossível de ser compensado em outro lugar.

Especialistas dizem que, se as flexibilizações do deputado forem instituídas, o compromisso de redução de emissões de gases de efeito estufa assumido pelo Brasil em Copenhagen não poderá ser cumprido. Isso porque a maior parte da área verde protegida hoje no país é graças ao Código Florestal. São 104 milhões de hectares de vegetação natural.

Você pode pensar: Ah..mas não é muita área verde? Como criar o desenvolvimento necessário para o país crescer?

Tem muita área fértil descoberta sem que seja preciso desmatar e parte do setor agrícola é ineficiente, não usa todo o conhecimento e tecnologia para melhorar a produção.

Lembrando que o Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo e, ainda assim, ocupa um vergonhoso índice de desnutrição.

Então, vamos organizar a casa e parar de varrer a sujeira pra baixo do tapete.

JP Rodrigues é Gestor e Educador Ambiental em Sorocaba
Críticas, elogios e sugestões: joao.gestor.ambiental@gmail.com

19.05.2010 – Além do que se vê

Nunca falou-se tanto em meio ambiente, impacto ambiental, reciclagem, poluição e aquecimento global quanto nos dias atuais.

Mas essas idéias hoje amplamente difundidas começaram lá na década de 70, através dos hippies que pregavam a interação e o respeito a natureza, e ficou erroneamente estereotipado desta forma. Esse movimento ficou conhecido como “Peace and Love”.

Até bem pouco tempo atrás, a preocupação com o meio ambiente era vista como “frescura” ou “gente maluca que não tem nada melhor pra fazer”.

Hoje em dia tudo mudou. Mas, o quanto isso é bom?

De lá pra cá tivemos algumas conferências relacionadas (as mais significativas foram a primeira, em Estocolmo em 72 e a última, a Rio/92), que contou com a participação de ONG´s e chefes de estado. Algumas conquistas, sem dúvida alguma, aconteceram. E a principal delas é que chamaram a atenção para o tema, antes restrito somente a poucos grupos interessados.

O modelo de desenvolvimento e consumo atual, predatório, ainda está longe de ser modificado. Isso porque há muitos interesses em jogo.

A mídia, principalmente a televisiva, é uma grande formadora de opiniões. Pode influenciar nas decisões mais importantes que um país pode e deve tomar.

Então cada vez mais vemos comerciais e programas com temática ambiental, dando dicas e fazendo propaganda do que determinado fabricante ou produto faz para preservar o meio ambiente. Mas repare que, o comercial a seguir será, provavelmente, um incentivo para o consumo. Seja para que você troque de carro, compre um guarda-roupa, uma tv, um celular…

É impossível fazer algo significativo para preservar o meio ambiente sem, primeiro, frear o impulso consumista que nos move. E os grandes fabricantes, que são quem realmente ganham com isso, claro, jamais divulgarão informações e idéias como estas.

É preferível dizer que, ao comprar determinado produto, mudas de árvores serão plantadas.

Digo isso para tentar lançar luz ao fato de que, desde os primórdios do movimento ambientalista, muito pouco efetivo fez-se. Conceitos equivocados ainda estão arraigados no consenso geral e poucos são os que conseguem enxergar além do que nos dizem os meios de comunicação.

Daí a importância de uma Educação Ambiental diferenciada, ampla e ousada. Esse é o grande paradigma do século 21.

E um dos objetivos desta coluna.

JP Rodrigues é Gestor e Educador Ambiental em Sorocaba/SP
JP Rodrigues é Gestor e Educador Ambiental em Sorocaba/SP
Críticas, elogios e sugestões: joao.gestor.ambiental@gmail.com

16.01.2010 – Haiti: O tabuleiro que desaba

Foto aérea do Terremoto. Foto: Divulgação
Foto aérea do Terremoto. Foto: Divulgação

Além do efeito devastador do terremoto que, literalmente, destruiu o Haiti, o acidente natural que interrompeu os trabalhos de reconstrução do país, expõe a face mais perversa do processo de interferência, dominação e exploração de um pais ou um grupo de países sobre outro mais frágil.

Ao manifestar sua solidariedade ao povo haitiano, a ANAGEA não se esquiva de suas responsabilidades e tece algumas considerações acerca desse tabuleiro que desaba sobre as cabeças dos diversos atores, presentes ou distantes ao evento. Haiti, um triste aprendizado.

Nesse momento terrível, de extrema dor física e moral dos haitianos, talvez um reinicio.

Nenhum indivíduo que não seja um haitiano, pode tocar o corpo de outro cidadão haitiano morto para sepultá-lo, um rito quase impossível de ser cumprido após um evento de extermínio de milhares de seres humanos num só golpe, o terremoto.

A participação do Brasil na reconstrução do Haiti, foi o maior acerto dos organismos internacionais, nossas características culturais e falta de tradição belicista agressiva, tornou possível o processo de pacificação desse pais Com poder pulverizado entre tantas facções armadas, o resgate da identidade cultural seria inviável num cenário de extrema pobreza.

Dra. Zilda Arns - Foto: Divulgação
Dra. Zilda Arns – Foto: Divulgação

A presença da Dra. Zilda Arns, uma das vítimas da tragédia, criadora e coordenadora mundial da pastoral da criança, seria uma das estratégias para o resgate dos valores culturais daquele povo, assim como o trabalho que a EMBRAPA daria início este mês com a reorganização da produção de alimentos básicos.

O desmoronamento do Haiti deixa muito mais do que milhares de vítimas fatais, adia em muito a retomada da normalidade no país. Neste momento, a ANAGEA manifesta seu sentimento de pesar pelo povo haitiano e morte dos brasileiros presentes no Haiti, os soldados do exército que, serena e bravamente cumpriam sua missão e Dra. Zilda Arns, outra brava determinada que doou a própria vida em prol da solidariedade humana, função digna somente aos mais iluminados seres humanos.

Que Deus esteja com todos.

Por Léo Urbini